[Timeline]

[Exhibitions & Works]

[Critical Texts]

[Sem Data]

[texts ART anna]

[Contact]

Sine Die [Sem Data]

Filmografia [Filmography]

________________________________________________________________________________________________________________

É O Que É [It Is What It Is]

In Atto (No Lugar) [In Place]

Tenho Dito & Digo [I Have Said and Say]

Performances [Performances]

________________________________________________________________________________________________________________

Título: É O QUE É

Edição: Anna Maria Maiolino e Mateus Pires

Fotografia com câmera de celular: Anna Maria Maiolino

Voz: Tania Piffer

Duração: 8’ 36”

 

Sinopse: “É O QUE É”,  é o título do último vídeo produzido por Anna Maria Maiolino. Ela define esse trabalho como “a-documentário” ou “entre-documentos” e faz parte de uma pequena série de vídeos onde a artista se associa ao real como motivador poético da obra.

 

A maneira livre como foi utilizada a câmera na captação de imagens evidenciam que nessa filmagem não há interessa a dar supremacia ao olhar. O vídeo escorre entre a presença da morte e seus mistérios com os movimentos livres da câmera e os sons no espaço escuro da gruta do cemitério Delle Fontanelle. Os sons produzidos pela voz de Tania Piffer acentuam o sortilégio do espaço, e o vídeo, não obstante a não linearidade da narrativa vai adquirindo sentidos entre o irônico e o trágico.

 

A gravação foi realizada na visita que Maiolino realizou ao “Cimitero delle Fontanelle” em Nápoles que ocupa espaços dos subsolos da cidade. A peculiaridade deste cemitério não está somente no que você vê, mas em todas as histórias, anedotas e curiosidades que tem por trás sua história como antigo ossuário que se estende por mais de 3000 metros quadrados. O o cemitério preserva quatro séculos de restos mortais daqueles que não podiam pagar um enterro, vítimas das epidemias que frequentemente atingiam Nápoles. Ossos e crânios amontoados ficam à vista do visitante.

A ligação e sentimentos junto com a imaginário da vida após da morte  faz parte da vida cotidiana dos napolitanos e é integrante à cultura da cidade.

 

 

Title: IT IS WHAT IT IS

Editing: Anna Maria Maiolino and Mateus Pires

Photography with cell phone camera: Anna Maria Maiolino

Voice: Tania Piffer

Length: 8 ’36”

 

Synopsis: “IT IS WHAT IT IS”, is the title of the last video produced by Anna Maria Maiolino. She defines this work as “a-documentary” or “between-documents” and is part of a small series of videos in which the artist associates with the real as a poetic motivator of the work.

The free way in which the camera was used to capture images shows that in this footage there is no interest in giving supremacy to the sight. The video runs between the presence of death and its mysteries with the free movements of the camera and the sounds in the dark space of the “Cimitero delle Fontanelle”. The sounds produced by Tania Piffer's voice accentuate the spell of space, and the video, despite the non-linearity narrative acquires meanings between the ironic and the tragic.

The recording was made during Maiolino’s visit to the “Cimitero delle Fontanelle” in Naples, Italy, which occupies underground spaces in the city. The peculiarity of this cemetery is not only in what you see, but in all the stories, anecdotes and curiosities behind its history as an ancient ossuary that stretches over 3000 square meters. The cemetery preserved four centuries of remains of those who could not afford a funeral, victims of the epidemics that often hit Naples. Bones and skulls huddled together are visible to the visitor.

The connection and feelings together with the imaginary of life after death is part of the daily life of Neapolitans and is integral to the culture of the city.

________________________________________________________________________________________________________________

IN ATTO [No Lugar], uma performance de Anna Maria Maiolino, 2015

 

In Atto se realiza com duas personagens: uma mulher jovem, Sandra Lessa, a performer, e outra anciã, Anna Maria Maiolino. A participação da artista neste trabalho se reveste de aspectos metafóricos e simbólicos como esteio para que a jovem volte à vida.

 

A obra mostra aspectos de rituais que proporcionam a afirmação da vida sobre a dor, a repressão e a morte. Sandra, a jovem performer, compõe uma linguagem de sons composta de vocalizações associada à teatralização do seu corpo. A paisagem sonora trabalha com uma linguagem própria, com um sentido extragramatical, sem perder o sentimento das dimensões do acontecimento do ato criativo. A teatralização do corpo em IN ATTO, comparada a um rito xamânico com seus gritos e movimentos, suscita a autorrestauração da vida sobre a morte. O corpo que inicialmente estava inerte, enfaixado em bandagens, com o desenrolar da performance se alimenta de si mesmo, se regenera e retorna à vida.

 

IN ATTO [In Place], a performance by Anna Maria Maiolino, 2015

 

In Atto is rendered by two women: the young performer, Sandra Lessa, and the elder, Anna Maria Maiolino. The artist’s participation in this work exudes metaphoric and symbolic aspects, as a support for bringing the youngster back to life.

 

The work shows life-affirming aspects of rituals related to pain, repression and death. Sandra, the young performer, composes a language of voiced sounds associated to the dramatization of her body. The soundscape works with a language of its own, with an extra-grammatical sense, and without losing the feeling of the dimensions of the creative act in the making. The corporal dramatization in IN ATTO, compared to a shamanic rite with its shouts and movements, stirs the self-restoration of life over death. The body, initially inert and wrapped in bandages, as the performance unfolds feeds on itself, is regenerated and returns to life.

________________________________________________________________________________________________________________

TENHO DITO & DIGO (revisado em 22/01/2020)

 

 

Entrelaçando minha memória com meus sentimentos realizo anotações, narrativas dos tempos passados, do presente, e dos tempos que virão. Estes escritos são retirados do projeto multimidia em processo: SINE DIE [Sem Data], iniciado em 2007

São Paulo, 23/11/2019

 

 

 

 

I

agarro o minuto

o segundo

o átimo

o milésimo do milésimo do instante

somo-subtraio tempo

até o fim

Rio de Janeiro, 16/04/1992

 

 

 

II

Olhos velhos com novo olhar vêm-me no espelho – lugar, não lugar, onde em verdade não estou. Vejo minha imagem, uma cartografia de pele, desgastada, envelhecida. Gosto de me auto apresentar como um ponto de tensões. Uma nômade que, como toda viajante, carrega na alma a subversão das convenções. Estou de passagem, não pertenço a nenhum lugar. Com técnica de bisturis e lâminas foram-me desenhados na pele os anos que passaram - uma escarificação profunda do viver. Um desenho único e soberbo em alto e baixo relevo, sobre e dentro do meu corpo.

 

 

 

III

Nasço! Nascemos verdadeiramente no dia em que, sentimos profundamente que tem algo grave e inesperado na vida. “[...] Consequentemente mais de uma vez; e cada um desses nascimentos nos revela um pouco nosso Deus[...] Todavia é necessário que tua mãe agonize nos teus braços, ou que teus filhos pereçam em um naufrágio e que tu mesmo passes ao lado da morte para adquirir por fim o conhecimento de que estás em um mundo incompreensível e onde te encontras para sempre”.  Pois é, Maeterlinck, no seu livro: A Inteligência das Flores, tens ração! É necessário que teu amado seja abatido por uma bala perdida ou quem sabe que morra afogado em uma enchente para que vislumbres por um instante que, os últimos limites do reino do amor vão além da violência e da fúria da natureza. Ah! Se tivesse aberto os olhos! Poderia ter visto em um beijo o que hoje observo em uma catástrofe.  É necessária a dor para o despertar da consciência que repousa na nossa alma.  As tragédias humanas deixavam dona Vitalia, minha mãe, em estado de comoção, e como que para exorcizar o mal passava a declamar durante os afazeres domésticos os versos de Dante, o capítulo XXXII do Inferno da Divina Comedia: Il Conte Ugolino, como ela especificava.  Sua voz dramática repetia mais de uma vez pela casa. “La bocca sollevò dal fiero pasto, quel peccator, forbendola ai capelli,..” a história da paterna antropofagia, que a mi, criança, atemorizava.   Pergunto-me: que diria hoje, dona Vitalia do nosso cansaço, dessa vida enfraquecida, do nosso viver super informatizado, contudo, sem esperanças? O que diria de nossa humanidade anestesiada fugindo da dor, das tensões? Uma sociedade que nos exige que estejamos sempre alegrinhos e pasteurizados: corpo sarado, retocado, renovado. A cirurgia plástica faz milagres! Temos próteses para tudo!  “Ma, figlia mia, questa non é vita! Resisti! Negati a rinunciare alle necessita dei tuoi sensi. Perché sono loro che ci danno le vere dimenzioni della vita.” Sim, é isso que ela diria.  Os sentidos, mas eles também enganam. Em quem acreditar? Sutra Lankavatara ensina que: “as cousas não são como parecem ser. Nem são de outra maneira”, e a física quântica completa: “As coisas não são exatamente ‘coisas’, elas são mais como possibilidades. Até mesmo o mundo material ao nosso redor: cadeiras, quartos, tapetes – não são nada além de movimentos possíveis da consciência.”  Assim, é difícil se equacionar!....  Mas, deixa para lá, e come diz Beckett: “falamos de algo mais, falamos do humano”, do nosso humano. No dia 11 de janeiro de 2008, o jornal Folha de São Paulo diz que a União Europeia afirma que os produtos de animais clonados são alimentos seguros para o consumo. Resolutamente decido parar de comer carne de vez, pois já é muito comer cadáveres.... ainda mais clonados! Porque não deixam a natureza em paz? Gostaria de dizer como Pitágoras: “Minha alma é um quadrado”, uma sólida, linda e simples metáfora.  Porque, a minha é uma espiral, um rodamoinho, sempre ansiando entendimento, movendo-se entre as pequenas e grandes coisas do mundo, sem início e sem fim, no prazer de viver. Com tudo, junto está à sua sombra de dor e destruição que, as acompanham. Sim, a vida é surpreendente, incompressível e paradoxal!  Mas, voltando a falar do humano: as ex-reféns colombianas Clara Rojas e Consuelo Gonzáles, liberadas pelas Farc, no dia 10 de janeiro desse ano, em Caracas acusam as Farc de crimes e tortura. Em entrevista coletiva, Clara Rojas relata o drama de seu parto em cativeiro e afirma que ainda há sequestrados presos na selva da Colômbia. Assim como segue-se matando na Faixa de Gaza e no Iraque. A violência assusta-nos nas cidades Rio de Janeiro e São Paulo. A paranoia não é mais uma patologia dolorosa, ela incorporou-se naturalmente em todos. É insuportável sim, mas a carregamos conosco igual que nosso telefone celular portátil, com resignação.  No dia a dia, uma bala perdida, um homem-bomba não nos espantam mais do que a bactéria, o vírus, ou retrovírus. É difícil de acreditar, mas é verdade. O que está nos acontecendo?  Enquanto isso, uma nuvem de hidrogênio gigante está vindo em direção à Via Láctea de acordo com astrônomos. A Nuvem Smith, como é conhecida, poderá causar espetaculares fogos de artifício quando colidir com a nossa galáxia, o que deve acontecer em 20 até 40 milhões de anos.  Eu, certamente não verei este espetáculo, estarei morta há muito tempo. Nesse instante decido dizer SIM à vida. O SIM criador de Espinosa e Deleuze. Apropriar-me das palavras expressas nos votos de feliz ano-novo de 1882 por Nietzsche quando afirmava: “Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - Assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor “Fati” (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

São Paulo, 13/01/2008

 

 

 

I HAVE SAID AND SAY (revised as from 22/01/2020)

 

 

These writings are taken from the ongoing multimedia process: SINE DIE [No Date], started in 2007. Intertwining my memory with my feelings, I take notes, narratives of times past, present and future.

São Paulo, 23/11/2019

 

 

 

 

I

I grab the minute

the second

the split second

the thousandth of a thousandth of an instant

I add-subtract time

to the end

Rio de Janeiro, 16/04/1992

 

 

 

II

Old eyes with a new look regard me in the mirror – place, non-place, where in truth I am not. I see my image, a cartography of skin, worn, aged. I like to represent myself as a point of tensions. A nomad who, like every traveller, carries in her soul subverted conventions. I’m passing through, I belong nowhere. With scalpel and blade techniques, the years past were drawn onto the skin – a profound scarification of living. A single and superb drawing in high and low relief, over and inside my body.

 

 

 

III

I am born! We are truly born the day on which we feel deep down that there is something grave and unexpected in life. “[...] Consequently, more than once; and each of these births reveals a little of our God to us[...] However, it is necessary that your mother agonize in your arms, or that your children perish in a shipwreck and that you yourself brush past death to acquire, in the end, the knowledge that you are in an incomprehensible works and where you find yourself forever.” Thus, in his book The Intelligence of Flowers, Maeterlinck is right! It is necessary that your loved one be hit by a stray bullet, or who knows, drown to death in a flood, so that you glimpse for an instant that the final frontiers of the kingdom of love reach beyond the violence and fury of nature. Ah! If only I had opened my eyes! I could have seen in a kiss that which I observe in a catastrophe. The pain is necessary to spark the conscience that rests in our soul. Human tragedies left my mother, Donna Vitalia, in a state of commotion, and as if to exorcise evil, while performing domestic chores she began to recite verses from chapter XXXII of Inferno, from Dante’s Divine Comedy:  Il Conte Ugolino, as she specified it. Her dramatic voice repeated more than once around the house. “La bocca sollevò dal fiero pasto, quel peccator, forbendola ai capelli...” the history of paternal anthropophagy, which filled me, a child, with fear. I wonder what Donna Vitalia would have to say today of our exhaustion, of this weakened life, of our lives dominated by tech, yet without hope? What would she say of our anaesthetised humanity running away from pain, from tensions? A society that requires us to be constantly jolly and pasteurized: body ripped, photoshopped, renewed. Plastic surgery performs miracles! We have prostheses for everything! “Ma, figlia mia, questa non é vita! Resisti! Negati a rinunciare alle necessita dei tuoi sensi. Perché sono loro che ci danno le vere dimenzioni della vita.” Yes, that is what she would say. The senses, but they also deceive. Who should we believe? Sutra Lankavatara teaches that: “things are not as they seem, nor are they otherwise.” And quantum physics concludes: “Things are not exactly ‘things’, they are more like possibilities. Even the material world around us: chairs, bedrooms, rugs – they are nothing more than possible movements of conscience.” So, it’s difficult to make things add up! But, whatever, and as Beckett says: “let’s talk of something else, let’s talk about the human,” about our human. On 11 January 2008, the Folha de São Paulo newspaper reports that according to the European Union cloned animal food products are safe for consumption. Resolutely determined to eat meat once and for all, for it’s already a big step to eat corpses… let alone cloned ones! Why not leave nature in peace? Like Pythagoras, I would like to say: “My soul is a square,” a solid, beautiful and simple metaphor. Because mine is a spiral, a swirl, always craving understanding, moving between the small and large things of the world, with no beginning and no end, in the pleasure of living. However, your shoulder of pain and destruction accompanies them. Yes, life is surprising, incompressible and paradoxical! But, going back to talking about the human, former Colombian hostages Clara Rojas and Consuelo Gonzáles, freed by the Farc on 10 January this year in Caracas, accuse it of crimes of torture. In a press conference, Clara Rojas reports the drama of giving birth in captivity and maintains that there remain kidnapped prisoners in the Colombian jungle.  Just as they continue killing in Gaza Strip and in Iraq. Violence frightens us in cities like Rio de Janeiro and São Paulo. Paranoia is no longer a painful pathology, it has been naturally incorporated into all. It is unbearable, indeed, but we carry it with us like our mobile phone, resigned. In day-to-day life a stray bullet, a suicide bomber shock us no more than bacteria, the virus or retrovirus. It’s hard to believe, but it’s true. What is happening to us? Meanwhile, astronomers say a giant hydrogen cloud is heading toward the Milky Way. Smith’s Cloud, as it is known, may provoke spectacular fireworks when it collides with our galaxy, which should occur between 20 and 40 million years from now. I will certainly not be around to see this spectacle, I will have been dead for a long time. In this instant I decide to say YES to life. The creator YES of Spinoza and Deleuze. To quote Nietzsche, in his new year’s resolution of 1882: “I want more and more to perceive the necessary characters in things as the beautiful: —I shall thus be one of those who beautify things. Amor fati: let that henceforth be my love! I do not want to wage war with the ugly. I do not want to accuse, I do not want even to accuse the accusers. Looking aside, let that be my sole negation! And all in all, to sum up: I wish to be at any time hereafter only a yea-sayer!”   

________________________________________________________________________________________________________________

Performances [Performances]

Anna Maria Maiolino: Entrevidas, MOCA, 2017

6ª apresentação da performance Entrevidas, 1981/2019 no Miami Dade College em Miami, Flórida, EUA. A apresentação fez parte do projeto Living Together com a curadoria de Rina Carvajal, diretora executiva e curadora chefe do MOAD (Museum of Art and Design) e Joseph R. Wolin curador independente.

 

Participação especial: Gabriel Sitchin.

 

6th performance presentation Entrevidas [Between Lives], 1981/2019 at Miami Dade College in Miami, Florida, USA. The presentation was part of the Living Together project curated by Rina Carvajal, executive director and chief curator of the MOAD (Museum of Art and Design) and Joseph R. Wolin independent curator.

 

Special participation: Gabriel Sitchin.

2020 © copyright anna maria maiolino. all rights reserved // desenvolvido por yuri de francco

+ Filmografia [Filmography]

Título [Title]: Ad Hoc (A propósito),

[In this Case], 1982

Sonorizado e transcrito em vídeo em 2000 [Sound added and transcribed to video in 2000]

Música [Sound]: Paulo Humberto Moreira

Roteiro/Direção [Script/ Direction]: Anna Maria Maiolino

Fotografia [Photograph]: Regina Vater

Participação Especial [Special participation]:

Paulo Bruscky

Duração [Lenght]: 3’41”

 

Sinopse: Ad Hoc: a propósito, em latim. As mãos, sem o corpo do homem, aparecem a tela, sobre o fundo preto da blusa. A trilha sonora utiliza trechos falados da obra de Antonin Artaud, que continuam atuais - Ad Hoc - com os nossos problemas sociais.

 

[Summary: Ad Hoc, “By the way” in Latin. The hands, without the man´s body, appear in the screen´s expressive speech, upon the black background of the shirt. The sound track uses extracts from Antonin Artaud´s work, which are still actual, Ad Hoc, to the social problems of being.]

TENHO DITO & DIGO

(revisado em 22/01/2020)

 

 

Entrelaçando minha memória com meus sentimentos realizo anotações, narrativas dos tempos passados, do presente, e dos tempos que virão. Estes escritos são retirados do projeto multimidia em processo: SINE DIE [Sem Data], iniciado em 2007

São Paulo, 23/11/2019

 

 

 

 

I

agarro o minuto

o segundo

o átimo

o milésimo do milésimo do instante

somo-subtraio tempo

até o fim

Rio de Janeiro, 16/04/1992

 

 

 

II

Olhos velhos com novo olhar vêm-me no espelho – lugar, não lugar, onde em verdade não estou. Vejo minha imagem, uma cartografia de pele, desgastada, envelhecida. Gosto de me auto apresentar como um ponto de tensões. Uma nômade que, como toda viajante, carrega na alma a subversão das convenções. Estou de passagem, não pertenço a nenhum lugar. Com técnica de bisturis e lâminas foram-me desenhados na pele os anos que passaram - uma escarificação profunda do viver. Um desenho único e soberbo em alto e baixo relevo, sobre e dentro do meu corpo.

 

 

 

III

Nasço! Nascemos verdadeiramente no dia em que, sentimos profundamente que tem algo grave e inesperado na vida. “[...] Consequentemente mais de uma vez; e cada um desses nascimentos nos revela um pouco nosso Deus[...] Todavia é necessário que tua mãe agonize nos teus braços, ou que teus filhos pereçam em um naufrágio e que tu mesmo passes ao lado da morte para adquirir por fim o conhecimento de que estás em um mundo incompreensível e onde te encontras para sempre”.  Pois é, Maeterlinck, no seu livro: A Inteligência das Flores, tens ração! É necessário que teu amado seja abatido por uma bala perdida ou quem sabe que morra afogado em uma enchente para que vislumbres por um instante que, os últimos limites do reino do amor vão além da violência e da fúria da natureza. Ah! Se tivesse aberto os olhos! Poderia ter visto em um beijo o que hoje observo em uma catástrofe.  É necessária a dor para o despertar da consciência que repousa na nossa alma.  As tragédias humanas deixavam dona Vitalia, minha mãe, em estado de comoção, e como que para exorcizar o mal passava a declamar durante os afazeres domésticos os versos de Dante, o capítulo XXXII do Inferno da Divina Comedia: Il Conte Ugolino, como ela especificava.  Sua voz dramática repetia mais de uma vez pela casa. “La bocca sollevò dal fiero pasto, quel peccator, forbendola ai capelli,..” a história da paterna antropofagia, que a mi, criança, atemorizava.   Pergunto-me: que diria hoje, dona Vitalia do nosso cansaço, dessa vida enfraquecida, do nosso viver super informatizado, contudo, sem esperanças? O que diria de nossa humanidade anestesiada fugindo da dor, das tensões? Uma sociedade que nos exige que estejamos sempre alegrinhos e pasteurizados: corpo sarado, retocado, renovado. A cirurgia plástica faz milagres! Temos próteses para tudo!  “Ma, figlia mia, questa non é vita! Resisti! Negati a rinunciare alle necessita dei tuoi sensi. Perché sono loro che ci danno le vere dimenzioni della vita.” Sim, é isso que ela diria.  Os sentidos, mas eles também enganam. Em quem acreditar? Sutra Lankavatara ensina que: “as cousas não são como parecem ser. Nem são de outra maneira”, e a física quântica completa: “As coisas não são exatamente ‘coisas’, elas são mais como possibilidades. Até mesmo o mundo material ao nosso redor: cadeiras, quartos, tapetes – não são nada além de movimentos possíveis da consciência.”  Assim, é difícil se equacionar!....  Mas, deixa para lá, e come diz Beckett: “falamos de algo mais, falamos do humano”, do nosso humano. No dia 11 de janeiro de 2008, o jornal Folha de São Paulo diz que a União Europeia afirma que os produtos de animais clonados são alimentos seguros para o consumo. Resolutamente decido parar de comer carne de vez, pois já é muito comer cadáveres.... ainda mais clonados! Porque não deixam a natureza em paz? Gostaria de dizer como Pitágoras: “Minha alma é um quadrado”, uma sólida, linda e simples metáfora.  Porque, a minha é uma espiral, um rodamoinho, sempre ansiando entendimento, movendo-se entre as pequenas e grandes coisas do mundo, sem início e sem fim, no prazer de viver. Com tudo, junto está à sua sombra de dor e destruição que, as acompanham. Sim, a vida é surpreendente, incompressível e paradoxal!  Mas, voltando a falar do humano: as ex-reféns colombianas Clara Rojas e Consuelo Gonzáles, liberadas pelas Farc, no dia 10 de janeiro desse ano, em Caracas acusam as Farc de crimes e tortura. Em entrevista coletiva, Clara Rojas relata o drama de seu parto em cativeiro e afirma que ainda há sequestrados presos na selva da Colômbia. Assim como segue-se matando na Faixa de Gaza e no Iraque. A violência assusta-nos nas cidades Rio de Janeiro e São Paulo. A paranoia não é mais uma patologia dolorosa, ela incorporou-se naturalmente em todos. É insuportável sim, mas a carregamos conosco igual que nosso telefone celular portátil, com resignação.  No dia a dia, uma bala perdida, um homem-bomba não nos espantam mais do que a bactéria, o vírus, ou retrovírus. É difícil de acreditar, mas é verdade. O que está nos acontecendo?  Enquanto isso, uma nuvem de hidrogênio gigante está vindo em direção à Via Láctea de acordo com astrônomos. A Nuvem Smith, como é conhecida, poderá causar espetaculares fogos de artifício quando colidir com a nossa galáxia, o que deve acontecer em 20 até 40 milhões de anos.  Eu, certamente não verei este espetáculo, estarei morta há muito tempo. Nesse instante decido dizer SIM à vida. O SIM criador de Espinosa e Deleuze. Apropriar-me das palavras expressas nos votos de feliz ano-novo de 1882 por Nietzsche quando afirmava: “Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - Assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor “Fati” (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

São Paulo, 13/01/2008

 

 

 

I HAVE SAID AND SAY (revised as from 22/01/2020)

 

 

These writings are taken from the ongoing multimedia process: SINE DIE [No Date], started in 2007. Intertwining my memory with my feelings, I take notes, narratives of times past, present and future.

São Paulo, 23/11/2019

 

 

 

 

I

I grab the minute

the second

the split second

the thousandth of a thousandth of an instant

I add-subtract time

to the end

Rio de Janeiro, 16/04/1992

 

 

 

II

Old eyes with a new look regard me in the mirror – place, non-place, where in truth I am not. I see my image, a cartography of skin, worn, aged. I like to represent myself as a point of tensions. A nomad who, like every traveller, carries in her soul subverted conventions. I’m passing through, I belong nowhere. With scalpel and blade techniques, the years past were drawn onto the skin – a profound scarification of living. A single and superb drawing in high and low relief, over and inside my body.

 

 

 

III

I am born! We are truly born the day on which we feel deep down that there is something grave and unexpected in life. “[...] Consequently, more than once; and each of these births reveals a little of our God to us[...] However, it is necessary that your mother agonize in your arms, or that your children perish in a shipwreck and that you yourself brush past death to acquire, in the end, the knowledge that you are in an incomprehensible works and where you find yourself forever.” Thus, in his book The Intelligence of Flowers, Maeterlinck is right! It is necessary that your loved one be hit by a stray bullet, or who knows, drown to death in a flood, so that you glimpse for an instant that the final frontiers of the kingdom of love reach beyond the violence and fury of nature. Ah! If only I had opened my eyes! I could have seen in a kiss that which I observe in a catastrophe. The pain is necessary to spark the conscience that rests in our soul. Human tragedies left my mother, Donna Vitalia, in a state of commotion, and as if to exorcise evil, while performing domestic chores she began to recite verses from chapter XXXII of Inferno, from Dante’s Divine Comedy:  Il Conte Ugolino, as she specified it. Her dramatic voice repeated more than once around the house. “La bocca sollevò dal fiero pasto, quel peccator, forbendola ai capelli...” the history of paternal anthropophagy, which filled me, a child, with fear. I wonder what Donna Vitalia would have to say today of our exhaustion, of this weakened life, of our lives dominated by tech, yet without hope? What would she say of our anaesthetised humanity running away from pain, from tensions? A society that requires us to be constantly jolly and pasteurized: body ripped, photoshopped, renewed. Plastic surgery performs miracles! We have prostheses for everything! “Ma, figlia mia, questa non é vita! Resisti! Negati a rinunciare alle necessita dei tuoi sensi. Perché sono loro che ci danno le vere dimenzioni della vita.” Yes, that is what she would say. The senses, but they also deceive. Who should we believe? Sutra Lankavatara teaches that: “things are not as they seem, nor are they otherwise.” And quantum physics concludes: “Things are not exactly ‘things’, they are more like possibilities. Even the material world around us: chairs, bedrooms, rugs – they are nothing more than possible movements of conscience.” So, it’s difficult to make things add up! But, whatever, and as Beckett says: “let’s talk of something else, let’s talk about the human,” about our human. On 11 January 2008, the Folha de São Paulo newspaper reports that according to the European Union cloned animal food products are safe for consumption. Resolutely determined to eat meat once and for all, for it’s already a big step to eat corpses… let alone cloned ones! Why not leave nature in peace? Like Pythagoras, I would like to say: “My soul is a square,” a solid, beautiful and simple metaphor. Because mine is a spiral, a swirl, always craving understanding, moving between the small and large things of the world, with no beginning and no end, in the pleasure of living. However, your shoulder of pain and destruction accompanies them. Yes, life is surprising, incompressible and paradoxical! But, going back to talking about the human, former Colombian hostages Clara Rojas and Consuelo Gonzáles, freed by the Farc on 10 January this year in Caracas, accuse it of crimes of torture. In a press conference, Clara Rojas reports the drama of giving birth in captivity and maintains that there remain kidnapped prisoners in the Colombian jungle.  Just as they continue killing in Gaza Strip and in Iraq. Violence frightens us in cities like Rio de Janeiro and São Paulo. Paranoia is no longer a painful pathology, it has been naturally incorporated into all. It is unbearable, indeed, but we carry it with us like our mobile phone, resigned. In day-to-day life a stray bullet, a suicide bomber shock us no more than bacteria, the virus or retrovirus. It’s hard to believe, but it’s true. What is happening to us? Meanwhile, astronomers say a giant hydrogen cloud is heading toward the Milky Way. Smith’s Cloud, as it is known, may provoke spectacular fireworks when it collides with our galaxy, which should occur between 20 and 40 million years from now. I will certainly not be around to see this spectacle, I will have been dead for a long time. In this instant I decide to say YES to life. The creator YES of Spinoza and Deleuze. To quote Nietzsche, in his new year’s resolution of 1882: “I want more and more to perceive the necessary characters in things as the beautiful: —I shall thus be one of those who beautify things. Amor fati: let that henceforth be my love! I do not want to wage war with the ugly. I do not want to accuse, I do not want even to accuse the accusers. Looking aside, let that be my sole negation! And all in all, to sum up: I wish to be at any time hereafter only a yea-sayer!”   

2020 © copyright anna maria maiolino. all rights reserved.

// desenvolvido por yuri de francco